Dicas para desenvolver estudos interdisciplinares na Amazônia

A Amazônia Socioambiental é uma empresa de pesquisas com atuação na Amazônia. Entre 2013 e 2017, período que a empresa esteve incubada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, as equipes de trabalho estiveram envolvidas em dezenas de processos de aprendizagem e desenvolvimento interdisciplinares. Para introduzir estas experiências, esta publicação tem o objetivo de tratar da interdisciplinaridade na interface técnica-científica ou prática-teórica, na perspectiva dos trabalhos da Amazônia Socioambiental, mas sem ter a pretensão de esgotar ou delimitar a rica realidade da ciência interdisciplinar.

As pesquisas interdisciplinares em estudos ambientais são fundamentadas por conceitos integradores e conduzidas por meio da colaboração entre várias especialidades (Alves, D.S 2014). Em uma experiência da Amazônia Socioambiental, por exemplo, a equipe de pesquisa trabalhou com o conceito de “ordenamento territorial” para produzir conhecimentos atualizados sobre a criação e a alteração de Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Assentamentos na Amazônia brasileira. Este trabalho demandou estudos sobre um período de cinco décadas (1960-2016) e especialistas em administração, ciências biológicas, ciências de florestas tropicais e geociências e poderia ter incluído outras especialidades.

A experiência mais criativa que a equipe da Amazônia Socioambiental teve no campo interdisciplinar foi no desenvolvimento de uma plataforma digital para dar visibilidade às organizações agroextrativistas da Amazônia. O conceito integrador foi “cadeias produtivas“. A equipe de trabalho foi formada por especialistas em biologia, engenharia florestal, ciência da computação e design de interação interface-usuário. A plataforma foi nomeada como FloraUp e rapidamente foi reconhecida como uma solução para a baixa comunicação entre os extrativistas e os demandantes de produtos naturais.

O conceito de cadeia produtiva aplicado na Amazônia brasileira é definido como uma sucessão de eventos e processos que incluem educação, pesquisa, manejo, beneficiamento, distribuição, comercialização e consumo de produtos florestais inerentes aos povos e comunidades tradicionais, com divisão equitativa dos benefícios gerados (MMA 2009). Como exposto acima, fica perceptível a complexidade deste conceito integrador, sendo possível notar sua demanda naturalmente interdisciplinar. Neste contexto, as experiências da Amazônia Socioambiental com cadeias produtivas incluem espécies de plantas com produtos acessados globalmente como a seringueira, o açaí, a castanha, o guaraná, o cumarú, o breu, a andiroba, o pau-rosa, o cupuaçu e o murumuru.

Além de um conceito integrador e de uma equipe com várias especialidades, as pesquisas interdisciplinares exigem minimamente uma pessoa capaz de dissolver e integrar os distintos conhecimentos, as diferentes escalas e as expectativas das partes interessadas. Este profissional precisa carregar em si ciências e práticas que estão além da disciplinar e da multidisciplinar. Em estudos ambientais, pode-se pensar que precisaria pensar de forma orgânica (regulação biótica do planeta) e social (degradação ambiental), perto da utopia e da transdisciplinaridade. Contudo, os profissionais preparados para estudos interdisciplinares ainda são fracos, o que justifica a mudança no atual padrão de ensino em algumas universidades brasileiras.

A seguir, são apresentadas algumas metodologias utilizadas por pesquisadores que trabalham na Amazônia para realizar estudos interdisciplinares e algumas fontes oficiais para pesquisas. Entretanto, vale destacar que existem diversas outras maneiras, porque isso dependerá do conceito integrador. Assim, os meios apresentados aqui são para exemplificar aos interessados como os dados foram levantados com base nos conceitos apresentados anteriormente: ordenamento territorial e cadeias produtivas na Amazônia, e para indicar algumas fontes com informações diversas sobre a Amazônia.

Cinco métodos para fundamentar pesquisas interdisciplinares:

  • Informações autênticas: utilize o Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC), dispositivo da Lei de Acesso à Informação (12.527/2011). A Lei garante acesso aos dados públicos levantados por organizações públicas e da sociedade civil (ONGs) em pesquisas com recursos públicos. Este método possibilita coletar dados de várias condições do território Amazônia, sendo uma das melhores maneiras de atuar em estudos de curta duração.
  • Entrevistas remotas, normalmente via Skype ou telefone, permitem acessar dados primários com baixo custo e com rapidez. As entrevistas geralmente são realizadas por indicações e, quando necessário, informações complementares são levantadas com outros agentes reconhecidos. Os formulários de pesquisa normalmente possuem três formatos: 1. Censo; 2. Amostragens que permitem estimativas em distintas escalas ou 3. Informações específicas para responder questões particulares da pesquisa.
  • Compilação de dados na literatura. As principais fontes de consultas são artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais e documentos técnicos das organizações da sociedade civil. Informações recentes são preferidas em comparação às antigas. Os dados precisam ser organizados para possibilitar extrair informações com rapidez e documentados para garantir acesso e uso imediato e futuro.
  • Processamento e análise de dados para um entendimento integrado dos elementos estudados. Esta parte do trabalho envolve uso de software e aplicação de estatísticas descritivas, como medidas de posição e dispersão, bem como análises mais elaboradas como Análise de Variância, regressão, análises geográficas e multivariadas, assim como estatística aplicada ao sensoriamento remoto. Nesta parte há ainda a produção de tabelas, figuras, mapas e infográficos representativos dos dados e das questões estudadas.
  • Gestão e Curadoria de Dados é a parte dos métodos que garante acesso aos dados e entendimentos dos mesmos por longo prazo, além de possibilitar estudos contínuos e independentes. Organizações como a FAPESP (veja: gestão de dados) e CENBAM (veja: repositório de dados), dentre outras, estão com atenção voltada aos aspectos da gestão e curadoria, por se tratar de uma prática obrigatória quando envolve pesquisas financiadas com recurso público. A principal característica do método é armazenar os dados e arquivos do estudo de forma permanente e disponibilizá-los de forma remota sempre que solicitados.

Onze fontes oficiais de dados para aplicação interdisciplinar:

  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE
  • Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza – ICMBio
  • Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE
  • Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Amazonas – IDAM
  • Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA
  • Fundação Nacional do Índio – FUNAI
  • Ministério do Meio Ambiente – MMA
  • Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA
  • Ministério dos Transportes, Portos e Aviação
  • Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão
  • Serviço Florestal Brasileiro – SBF

Entre os pesquisadores com atuação interdisciplinar é possível perceber a sensação que o Brasil tem avançado na disponibilização de dados públicos deste o início da Lei de Acesso à Informação em 2011. De fato, as organizações públicas estão preocupadas com isso, por exemplo: a FAPESP (veja: gestão de dados) e o CENBAM (veja: repositório de dados). Contudo, ainda existem limitações no atendimento da lei, no sentido de tornar os dados ainda mais acessíveis e a gestão pública mais transparente, mas não impedem novas pesquisas interdisciplinares em estudos ambientais.

Referências:

Alves, D.S. 2014. Pesquisa Interdisciplinar em Estudos Ambientais. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/268077316_Pesquisa_Interdisciplinar_em_Estudos_Ambientais [accessed Jun 06 2018].

Amazônia Socioambiental, 2018. Inteligência geográfica para entender a paisagem e fundamentar decisões. Disponível em: http://amazoniasocioambiental.com.br/2016/08/inteligencia-geo/ [Acessado em 7 de junho de 2018]

BRASIL 2011. Lei de Acesso à Informação 12.527/2011. Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC). Disponível em: https://esic.cgu.gov.br/sistema/site/index.aspx Acesso em 14 12 de junho de 2016.

MMA (Ministério do Meio Ambiente do Brasil) 2009. Plano Nacional de Promoção das Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade. Disponível em: http://www.mma.gov.br/desenvolvimento-rural/sociobiodiversidade Acesso em 14 de junho de 2018.

Sobre o autor:

Diego Oliveira Brandão é bacharel em Ciências Biológicas, mestre em Ecologia e doutorando em Ciência do Sistema Terrestre. Pesquisador na Amazônia Socioambiental. Desenvolve estudos em diversidade biológica e mudanças climáticas. Atualmente busca entender como os efeitos das mudanças ambientais irão afetar as cadeias produtivas na Amazônia em médio e longo prazos.